27/04/09

O CASAMENTO DE VERÔNICA

Junto com a irmã gêmea Beatriz, Verônica era a filha mais nova de Seu José e Dona Neusa – que acrescentaram à árvore genealógica da família Silva o total de cinco filhos: Verônica, Beatriz e mais três rapazes - hoje, homens feitos, com esposas dedicadas e filhos encomendados à cegonha.

Das duas, Verônica era a mais centrada e mesmo com fama de boa moça, era em Beatriz que o povo da cidade de Crispino apostava quando o assunto era qual delas casaria primeiro. Mesmo com Beatriz vivendo rodeada por homens de todas as idades, as apostas não passaram da primavera daquele ano, quando ela se mudou para a capital do estado de Vandivia para tentar a sorte na cidade grande.

Enquanto isso em Crispino, Verônica continuava com a vida de sempre: da casa pro trabalho, do trabalho pra casa – rotina que volta e meia era quebrada por aniversários, batizados e o que ela mais havia participado nos últimos tempos: casamentos.

Naquela época, moça com mais de trinta anos que não estivesse devidamente encaminhada, ganhava fama de solteirona – o que os mais velhos conversavam em suas casas e que as crianças, ao ouvirem atrás das portas, gritavam pelas ruas da cidadezinha.

Verônica era frequentemente convidada a ser Madrinha dos casórios da região. Alguns dizem que isso acontecia menos por amizade e mais por interesse na dedicação e atenção que ela despendia na hora de ajudar a organizar os eventos. Era dita organizada e muito responsável. Montar a lista de presentes, fazer a relação de convidados, escolher o buffet, acompanhar a noiva nas diversas provas de vestido e aturar seus chiliques, renovava em Verônica a esperança de que logo seria a sua vez de ser paparicada e fisgar um marido. Com esta certeza, cumpria seus afazeres de madrinha com um sorriso confiante no rosto.

Tudo estivera acontecendo normalmente em Crispino, até chegar a notícia que acabou se tornado o assunto preferido das velhas gordas que conversavam debruçadas nas janelas de casa:

- Soube da última, Clonilda? Laís e Rudinei! Laís e Rudi estão em casas separadas. Laís diz que nunca mais quer ter para com ele. A coisa foi mesmo feia. Rudinei se enrabichou por uma rapariga aí. – passava a diante uma delas.

Aconteceu o que todos temiam. O primeiro casal a ser abençoado no novo altar construído com a ajuda do povo, havia se separado. Laís e Rudinei foram antes, o que se podia chamar de casal vinte. Sempre juntos e aparentemente felizes. Incansáveis no amor. E claro, afilhados de Verônica no matrimônio.

Quando a notícia se confirmou, foi como se todos na cidade passassem a desacreditar e temer o casamento. Se aconteceu com Laís e Rudi, pode acontecer com qualquer um de nós – pensavam os casados. E foi a partir daí que começaram as separações.

Na época, ainda estava para se casar a última das amigas solteiras de Verônica. E que como de costume e conforme tiveram combinado na infância – Verônica seria a madrinha.

O dia chegou, a cerimônia se realizou, veio a festa e nada da presença da madrinha escolhida anos atrás. O que se soube mais tarde foi que Verônica sequer havia sido convidada. Daquele dia em diante, se tornou o símbolo máximo da falta de sorte. Nenhum dos casamentos em que foi madrinha resistiu ao tempo e um a um foram ruindo.

"É uma invejosa" – diziam as más línguas; "ao invés de abençoar os casais pragueja pelo fim"; e "se não consegue ser feliz, ninguém haverá de ser".

Ela mesma já havia se convencido de que estava fadada à solidão. Mas não custou muito para as bocas de Crispino se calarem. Havia chegado à cidade, um jovem rapaz: Pedro, vindo de Bituí – um município vizinho dali. Trabalhava com construções e ouvira falar que a região estava em franco crescimento, decidiu então tentar a vida pelas bandas de lá. Não era muito afeiçoado, mas pode-se dizer que era bom o suficiente para dar uma chacoalhada na retidão com que Verônica vinha tocando a vida.

Tão logo completaram oito meses de namoro, ficaram noivos e para dali a quatro meses estava marcado o casamento. Era a vez de Verônica subir ao altar e receber as bênçãos do padre, era a sua vez de seguir pelo tapete vermelho; e não pegar o caminho da esquerda e se acomodar com os padrinhos e madrinhas conforme fizera incontáveis vezes. É o casamento de Verônica – aclamava a cidade eufórica, incrédula e aliviada.

Chegara o dia que daria fim à falta de sorte e que colocaria a personagem principal dessa história na enxuta lista de casados. Com ela, haveria de ser diferente, demorara tanto para casar que merecia que fosse para sempre - pensava.

E na hora marcada todos estavam na igreja para testemunhar com os próprios olhos a união de Pedro e Verônica. Feito o juramento dos noivos, dito o sim, trocadas as alianças, os beijos e feitas as fotos no altar, todos se dirigiram ao salão de festas para o momento da valsa, da janta e do bolo. Verônica estava, enfim, casada. Havia conseguido um homem para dividir os dias, a cama e a vida.

Passados dezoito anos, o que se pode dizer é que nenhuma das pragas rogadas pelas ex-amigas desquitadas de Verônica caiu sobre seu relacionamento com Pedro. Mas o que ninguém jamais soube foi que para garantir o felizes para sempre dessa história, Verônica sequer compareceu à cerimônia do seu casamento. A verdade é que Beatriz subiu ao altar e disse sim ao amor no lugar da irmã. Disse sim por amor à irmã.

A quem possa interessar, Beatriz só conseguiu chegar em Crispino a tempo de provar o bolo e pegar o final da festa. O que aconteceu de verdade, ninguém pode saber. E até hoje, nem Pedro desconfia.

22 comentários:

Líviarbítrio. disse...

Nossa!
Muito boa história.
Nunca imaginei que o final seria este. Finais surpreendentes são ótimos.

Adorei. ;)
Beijos.

Natiih disse...

Meu Deus, ameei a história. Teu blog é muito bom, e achei a crônica muito original e criativa. Beijos.

Fernanda Rodrigues disse...

Também quero ser igual a você quando crescer, e falo sério.
Mais um final inesperado e criativo. Enfim, parabéns e brigada pela visita.

MILHA TURVA disse...

Adorei a história e seu blog também.

Parabéns!

Quando tiver tempo dê uma passada no meu blog Milha Turva.

Até mais


Ass.: André Siqueira

Cesar Cruz disse...

Fala Gabriela,

Excelente causo! Parabéns pela criatividade (ou aconteceu mesmo?!)

bj
Cesar

Fernanda Rodrigues disse...

Ah, brigada, Gabi (pode?). Na verdade, esse até que fluiu com facilidade. Tem uns que nascem de cesariana e ainda precisam de uma equipe enorme de médicos. Ou não.

Pois é! Embora eu nunca tenha tido a tal da sorte no amor ao longo desses 15 anos de vida, talvez valha mesmo a pena se produzir um pouquinho mais antes de ir a padaria ou pegar o elevador.

Beijo!

Jean B. Pimentel disse...

gostei da história, Verônica se deu bem apesar do pesares.

http://confissoesdamadrugada.blogspot.com/

Diego Gonçalves Amaral disse...

Quantos habitantes viviam em "Crispino"? Matreidas essas irmãs =) queria no mínimo ler uma entrevista delas... agora sem brincadeiras, ficou muito criativo e surpreendente... parabéns!
Sinto falta de ter tempo para parar e escrever!

Bjs

ps. Fiz algumas músicas há muito tempo, são em inglês e não tenho pretensão de torna-las públicas, já que desacredito nela... mas na época que eu achava que eu era parte do novo "grunge" eu tive banda e tal... agora já passou e é só brincadeira e hobbie!

Wilame Prado disse...

Parabéns pelo texto! Estava imaginando que, no final, a Beatriz deixaria sua irmã ser amante do Pedro como condição para levar o casamento sem muitos problemas de rotina!
Obrigado pela visita ao A Poltrona. Volte sempre.
Bjo.

Jean B. Pimentel disse...

tem um selo pra vc no meu blog

http://confissoesdamadrugada.blogspot.com/

Vivendo deixando a vida me levar... disse...

Ei Gabriela, adorei seu espaço!
Vc escreve muito bem, suas histórias entao faz a gente viajar!!!
Vc devia escrever mais vezes!!!
Voltarei sempre viu!!!

Passe la no meu cantinho tb pra conhecer!!!

Beijoosss

ju peres disse...

MUITO BOM! EXCELENTE!

Beatriz disse...

Amei demais seu blog! Os tipos de texto são variados e são textos fáceis de ler e com histórias muito boas. Ah, final maaraa.
Ganhou mais uma seguidora.
beijoos

Paula Martins disse...

Posso dar um conselho. Muda a cor da fonte, tá difícil de ler e os seus textos são ótimos, seriam uma pena se alguém desistisse por esse motivo!
Abs.

Fernanda Rodrigues disse...

Não sei se você curte muito esse tipo de reconhecimento, mas, de qualquer forma, tem um selo para ti no meu blog. Nem precisa postar, bastar saber que considero o seu blog para lá de merecedor de toda e qualquer tipo de premiação.

Enfim, posso te fazer uma pergunta? Escreve desde que idade? :)

Paula Martins disse...

Vixi, para mim ele abre com fundo meio vinho e a letra cinza...rs...deve ser a porcaria do Internet Explorer...rs..
Mesmo assim continuarei lendo o blog, afinal, ele é mto bom.
Abs.

Janaina Moraes disse...
Esta postagem foi removida pelo administrador do blog.
Talita Moretto disse...

uauuu,nunca li uma cronica tão boa esse anoo*-* parabenss parabenss o finall então surpreendente

http://www.bolinhodevento.blogspot.com/

Blog da Mulher Necessária disse...

Gabi/adorei seu texto e blog
parabéns
beijo
Maria Aparecida Torneros

Ana Camila disse...

adorei teu blog.passa no meu !

Márwio Câmara disse...

Bem criativa sua narrativa, Gabriela.
Me chamo Márwio Câmara, sou escritor e jornalista em formação. No momento estou trabalhando em cima de dois projetos: um romance, que estou escrevendo a quase um ano e um livro de crônicas eróticas. Todos os dois devem sair publicados no ano que vem.
Te adicionarei no meu blog. Vai ser bacana vc passar lá. E parabéns pelo prestígio que tem com os seus leitores acima.
Beijo!

Márcio Ezequiel disse...

Ei, a cronista é contista também! Como diz um conhecido meu: "Bem bolado!"