quinta-feira

CRÔNICAS DE OUVIDO

Escrito por Gabriela Souza Gomes às 22:51 0 comentários Links para esta postagem
Hoje completo 2 meses como colunista do programa #CVExplica da médica psiquiatra Cínthya Verri. Toda quinta-feira, vamos ao ar +ou- 21h, na www.radioeletrica.com.br Após, você pode buscar os podcasts dos programas lá no site. Para ouvir minhas "CRÔNICAS DE OUVIDO" acesse meu SoundCloud: soundcloud.com/acronista

segunda-feira

ELE NÃO VAI MUDAR

Escrito por Gabriela Souza Gomes às 16:52 0 comentários Links para esta postagem
Não se engane: ele não vai mudar. Caras como ele não mudam. Não é preciso ter devorado a bíblia dos relacionamentos, nem ser expert afetiva para chegar a essa conclusão. Mas diga, com o máximo de franqueza e amor à verdade que corre em suas veias, células e terminações nervosas - você ainda acredita que ele possa se tornar alguém melhor? Alguém que você desejaria ter ao seu lado ou do lado de dentro?

Não, ele não é pra você. Ele nunca foi pra você. Nem em duas vidas, nem com os cosmos todos alinhados ele a faria feliz. A não ser que pra você tudo bem viver com um rombo instalado no meio do peito e o coração esfacelado. Esse cara nunca esteve nem aí para preenchê-la. Olhando de perto, ele sequer faz o seu tipo. 

Não se engane, menina. Eu sei que você adoraria uma realidade diferente, que talvez ele fosse diferente - não por capricho, não para medir forças, apenas para que se tornassem possíveis um ao outro. Você poderia ser diferente também. E tenho o palpite de que gostaria que ele entendesse um pouco mais do universo e alma feminina, que tivesse tido cem mulheres antes de você se isso o ajudasse a saber o que fazer agora que você se foi. Posso imaginar o quanto acharia incrível se ele não tivesse esse medo infantil de estar emocionalmente preso a uma mulher. As pessoas mais fortes não têm medo de mostrarem-se frágeis. 

Ele também não é o tipo de cara que assume os erros que comete. Você lembra a última vez que veio lhe pedir desculpas? Possivelmente, não tenha existido. Ou se existiu, você até consegue quantificar com metade dos dedos de uma só mão. A questão não é assumir uma culpa inventada para sentir-se uma pessoa moralmente boa, mas se responsabilizar por si e responder sem grandes dramas às próprias atitudes. Como se explica gostar de alguém que não sabe dividir responsabilidades? Que teve todas as chances de assumir os próprios equívocos?



Lembra da última vez que estiveram juntos? Ele sabia todas as respostas que o levariam a acertar ou errar. E ele escolheu pisar na bola outra vez. Quanto prazer existe em fazer doer quem se gosta? Nem tudo precisa ser dito, mas é preciso que saiba que você nunca esteve lá para medir forças. Você acreditava, aliás, que força mesmo era quando estavam juntos. Mas da última vez, como todas as outras vezes, ele considerou apenas as próprias vontades, como se você nem estivesse lá. Por onde você andava?

Ele não é o tipo de cara que abre mão do próprio prazer. E faz tudo tão bagunçado que é como se não soubesse quase nada a seu respeito. Mas se até as coisas que ele sabia passou por cima, como seria possível? Os conflitos eram seu mundo interno pedindo para ser cuidado. Já ouviu aquele papo sobre egocentrismo e egoísmo? O egocêntrico quer todos os olhos voltados para si, enquanto o egoísta tem seus olhos voltados apenas para si. 

Aliás, você tinha ideia de que podia se tornar alguém melhor pra si mesma em tão pouco tempo, menina? É preciso coragem pra desbravar esse mundo cheio de segredos e um pouco de imaginação para aguentar a realidade. Quando foi que você voltou a sorrir ao se olhar no espelho? Eu vi que da última vez você sorria.
Agora que você entende, lembre que todo reinício é uma estreia. Nenhum sentimento se repete. As pessoas não se repetem. Nós já seremos outros amanhã. E hoje já não somos mais os mesmos. Nossos fantasmas e terrores noturnos nos acompanham vertiginosamente, mesmo que atravessemos oceanos na ânsia de afogá-los.

Mas não se engane, menina! Uma hora surgirá alguém que irá fazê-la vibrar como nunca antes. Você já se deu conta que está tão cheia de luz? Uma hora surgirá alguém que vai desejar fazê-la ficar. E você irá ficar. 

E se hoje parece sobrar coração pra pouco sentimento, não desanime, menina. Logo chega alguém para ocupar todos os espaços, preencher todas as ausências, cicatrizar as feridas e fazer com que você se sinta inteira outra vez. Quanto a ele, ele não vai mudar.

quarta-feira

SÓ HOJE

Escrito por Gabriela Souza Gomes às 17:46 2 comentários Links para esta postagem
Se por algum poder mágico me fosse permitido escolher neste instante entre o mundo ou o seu mundo, ficaria com o segundo. Especialmente hoje, eu só queria o prazer de uma dança. Não sei se é porque o verão foi embora e porque faz frio na minha cama. Talvez seja a saudade – esta sacana, sussurrando coisas indizíveis, trazendo lembranças indevidas para debaixo do rebuliço do meu cobertor.

E havendo o prazer da dança, queria também o aconchego do abraço. Abraço de corpo inteiro, abraço que parece beijo, que deseja trazer para dentro, transformando dois corpos em um só. E por falar em corpos, experimentar a paz do meu corpo sobre o seu.

Queria qualquer coisa entre delicadeza e fúria. Mas fúria que representa urgência, pressa, desassossego, como quem implora apenas com o olhar, sem dizer uma única palavra, movendo a boca somente para separar os lábios - quero você, agora, aqui dentro de mim! Todo alívio provém de uma tensão crescente. O gozo, por exemplo, é um alívio. E o tesão, você sabe.

Passar a noite em claro, escutando a sua respiração se mesclar ao barulho da cidade e do meu próprio respirar, me molhando no suor da sua pele, me secando na sua língua e entre os lençóis. Passar a noite sem sentir o amanhecer.

Eu só queria a delícia de acordar sendo observada por você, que gentilmente me desperta enroscando as pernas entre as minhas. Que primeiro desliza as costas das próprias mãos contra a minha pele para ter certeza de que já acordei. E após, traz o rosto para pertinho do meu, como quem pede para ser observado. E vai se chegando, repousando a cabeça sobre o meu colo, implorando silenciosamente pelo toque. E eu toco.

Hoje, se por algum poder mágico me fosse permitido escolher, eu escolhia você. Não sei como acontecem, nascem e surgem essas vontades que vêm do nada e quando vão embora, se escondem sabe lá onde e por qual razão. Mas hoje, você me concede o prazer dessa dança?


segunda-feira

DEIXA QUE DIGAM

Escrito por Gabriela Souza Gomes às 17:34 0 comentários Links para esta postagem


SOBRE O EGOÍSMO

Escrito por Gabriela Souza Gomes às 00:07 2 comentários Links para esta postagem
A pessoa que nunca abriu mão de nada por você é a mesma que, ao abrir mão de você, não irá comunicá-lo. Egoístas funcionam assim: muito bem. Sozinhos.

sábado

O QUE NASCE DENTRO DA GENTE

Escrito por Gabriela Souza Gomes às 18:34 0 comentários Links para esta postagem
Quanto mais visceral e nascido das entranhas melhor – ele me disse.
Pena que nem tudo que surge de dentro da gente nasce bonito – desviei os olhos e lastimei.

quarta-feira

LIVE AND LET DIE - Quando um amor morre

Escrito por Gabriela Souza Gomes às 14:42 0 comentários Links para esta postagem

“But if this ever changing world
In which we live in
Makes you give in and cry
Say live and let die, live and let die.”

Há de se fazer silêncio. Um amor morreu. E quando um amor morre, parte da gente morre também. É preciso respeitar a falta de jeito, a voz embargada, o nó cego amarrado bem no meio da esperança, a saudade antecipada, os tropeços de quem não sabe direito como prosseguir, mas precisa ir em frente. A vida segue e amanhã é segunda-feira outra vez.

Há que se compreender os olhos borrados de rímel que escorre pelo rosto da menina e o sorriso roubado dos lábios do rapaz. Já reparou que todo mundo vira um pouco santo quando morre? Todo amor adquire tons de sagrado ao acabar também. Tem quem se apaixone ainda mais ao ver a mulher partir. Tem quem vire a mulher da vida do cara depois de ir embora.

Vocês viveram momentos incríveis juntos. Apresentaram o próprio mundo um para o outro, dividiram os amigos, as expectativas, os anseios, os medos, as risadas, o ciúme, o amor – foram cúmplices de uma mesma história. Descobriram-se nos estilos de vida parecidos, se estranharam ao darem-se conta de que não eram tão iguais quanto imaginavam e reconheceram que queriam ficar um pouco mais ali. Erraram pra caramba, acertaram algumas vezes, mas, sobretudo, se permitiram viver o amor.

Amanhã você vai acordar e o barulho do despertador vai soar mais irritante. A pilha de trabalhos continuará sobre a mesa, as contas não poderão atrasar, a família precisará de assistência, os amigos vão insistir na sua companhia, você não será considerada mais a mesma caso recuse ir pra balada. Sim, você já não é mais a mesma há tempos. E só quer chegar logo em casa, tirar o salto e se entregar à solidão dos próprios pensamentos.

O que mais dói quando um amor vai parar na UTI não é a soma de tentativas para resgatá-lo. Tentar uma sobrevida talvez não seja o mais inteligente – embora falte um pouco disso e de coerência quando a gente ama a ponto de se perceber do avesso. O que dói quando um amor morre é saber que não tem mais nada a ser feito, mas mais ainda, é ter que deixá-lo partir. Acabou, você entende?

Já não interessa o que não deu certo, onde foi que vocês erraram, não importa o culpado. Experimentem, aliás, dividir a responsabilidade de quem sabe que uma relação é feita a dois. Acusações só irão dificultar as coisas. Às vezes, o silêncio é a melhor resposta. Acredite. Às vezes, o silêncio acaba se tornando um estrondo.

Se um dia você foi corajosa o suficiente para deixar que o amor nascesse, precisará de coragem para deixá-lo partir. Muitas vezes, a morte de tudo o que a gente acredita é que nos ensina a voltar a viver. Como diz a música, “live and let die...” A vida começa todos os dias. Deixe morrer para voltar a viver.





domingo

CARTA PARA O CÉU

Escrito por Gabriela Souza Gomes às 22:05 2 comentários Links para esta postagem
Meu para sempre querido, vô,



Noite passada sonhei com você. E era como se o tempo nunca tivesse passado para nós. Você trazia flores nas mãos, um sorriso tranquilo na boca pequena e mantinha os olhos fechados enquanto caminhava em minha direção.

Seus braços eram compridos, e eu podia imaginar como seria caber em seu abraço. Os cabelos também estavam diferentes, agora eram bem mais ondulados – mas ainda tão escuros quanto os seus olhos - que eu não podia ver. É meio louco, mas me senti uma completa desconhecida no meu próprio sonho. Não tinha autonomia alguma, não importava qual fosse a minha vontade.

Deve ser verdade mesmo o que dizem, de que a gente sonha com nossos medos, saudades e desejos. Eu até senti medo no começo, mas deu uma saudade tão grande e vontade de continuar no mesmo sonho por dias a fio.

Quando você chegou até mim, se desfez das flores, deixando que caíssem na terra úmida, e em seguida esticou os braços compridos na minha direção. Nessa hora tive medo, mas reconhecer sua voz me aliviou. Você ofereceu a palma das mãos para que eu cheirasse. Disse que flores cheiravam ternura.

Eu sabia que era você no sonho. Mas com os olhos fechados o tempo todo, como eu poderia ter certeza que você sabia que era eu? Como você ainda se lembrava? Por que você não olhou para mim? 

Acordei com uma sensação estranha. Parecia que tinha sido a última vez que nos veríamos. Ou melhor, que eu veria você. Sabe, depois de tanto tempo eu voltava a experimentar a mesma sensação de quando trouxeram a notícia de que você havia falecido. Nunca esqueci daquele dia. Tava nublado, o tempo se armando para chuva. 

Depois que me contaram que você havia se ido, lembro que senti uma enorme vontade de ouvir música. Mas como era muito menina, pensava que era errado fazer qualquer coisa que pudesse aliviar a dor. Hoje não penso muito diferente, mas eu sei que você gostaria que eu tivesse acompanhada de música. Você gostava tanto.

Hoje durante o dia, forcei a memória e o seu rosto me faltou. Já não conseguia mais montar seus traços em minhas lembranças. Faz tanto tempo desde a última vez. E eu que sempre evitei seus retratos, tô me sentindo um fracasso. Tentar lembrar alguém que amamos por uma vida e ser derrotada pelo maldito tempo, pela inabilidade. Legítima insuficiência.

À noitinha, a mãe chegou com flores em casa. Disse que eram as suas preferidas: “Ele adorava”. Como cheiram bem! Eu até trouxe um vasinho com uma delas aqui pro quarto. Quando não tem ninguém olhando, fecho os olhos para sentir o aroma. Só agora eu compreendi, vô. Cheiro de ternura.

Com todo amor.
Sua neta,

Gabi.

quinta-feira

[CINETERAPIA] PROJETO ENTRA EM SEU 4º ANO

Escrito por Gabriela Souza Gomes às 17:18 2 comentários Links para esta postagem
Olá, queridos!

Quem vem aqui com certa frequência, provavelmente já tenha lido sobre o CINETERAPIA - um projeto que eu acho muito legal e que pelo nome entrega de cara a fusão 7ª arte e terapia.

Comandado pela médica psiquiatra Cínthya Verri e o terapeuta Roberto Azambuja, os encontros contam sempre com um convidado bem bacana que escolhe um filme de sua preferência para exibição. Após, é realizado um bate-papo aberto à participação do público, onde a obra é discutida e analisada sob uma perspectiva comportamental.

O CINETERAPIA acontece toda última 2ª-feira do mês, às 20h, no Cinebancários (Rua General Câmara, 424 – Centro), em Porto Alegre. 

Dia 25/03 vai rolar a exibição do suspense francês La Cérémonie - Mulheres Diabólicas (1995) de Claude Chabrol. E o convidado é o Mestre em Relações Interculturais Patrick Houdin.
 

Reservas de ingressos deverão ser feitas pelo e-mail projetocineterapia@gmail.com

 

terça-feira

AMOR ÀS AVESSAS

Escrito por Gabriela Souza Gomes às 19:02 2 comentários Links para esta postagem

Nem ela, nem ele eram bonitos. E sabiam disso. Só não se contentavam com tal condição porque isso, realmente, nunca os incomodou. Na verdade, curtiam toda essa contravenção à beleza.

Também não eram os mais inteligentes. Mas sim, antenados. Mantinham certo movimento sociocultural. Assistiam a bons filmes, conheciam bons autores, falavam de música, teatro e até novela com certo desprendimento. Não eram de muitos preconceitos.

Deixavam de conhecer pouca coisa um do outro, se sabiam quase que por inteiro. Ainda assim, sempre havia de existir algo de interessante e novo a ser descoberto.

Quando se encontravam, os olhos pediam-se em namoro. A boca sussurrava o sim que dançava até a altura dos ouvidos. A desobediência aos padrões era a principal testemunha desse amor.

Ela deixava de ser a mulher perfeita, apesar da vontade dele. Ele deixava de ser o homem ideal, apesar da esperança dela.

Costumavam pregar pequenas mentiras a tantos. Mas não conseguiam mentir um ao outro.

Ela não era de Leão, Câncer nem de Áries. Ele não era de Touro, Peixes ou Sagitário. Desalinhados, eram o inferno-astral um do outro, e isso fazia da relação o verdadeiro paraíso. Ela não vestia 38. E ele começava a dar sinais da futura perda de cabelos.

Ela não era o que ele costumava a considerar bonito, até conhecê-la. Ela também não via atrativos em tipos como ele, antes de encontrá-lo. A falta de perfeição os perdoava.

Ao contar piadas ele nunca acertava na comédia. Quando ela ria não era nada delicada. Ele não tinha frases prontas, desenvoltura para conversas a dois, nem paciência para almoços em família.

Ela não era lá muito romântica, controlada e aventureira. Errava nas receitas e adorava uma dose a mais. Era mais salgada do que doce. Mais Madonna que Maria Rita. Mais noite do que dia.

Ele não era bom ouvinte, nem dava os melhores conselhos. Era melhor gourmet que dançarino. Não vestia as roupas mais bacanas. Arranhava no violão e mandava mal no inglês. Não era bom em datas. Ele era mais rock do que bossa nova. Mais chopp do que academia.

Ele não tinha a mínima intenção de ser o melhor. E ela não saberia viver se não fosse aos tropeços.

Se amavam do avesso, que para eles era o lado certo. Se amavam tudo que podiam e até mesmo pelo que não eram.
 

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