Se a modernidade foi visionária, a pós-modernidade nem se fala. Ainda mais quando o assunto tem a ver com as relações humanas, com os grandes encontros (embora os desencontros), ou ainda com o amor.
Acho incrível a proximidade que a era digital (ou já estamos no pós-digital?) nos permite com outras pessoas. Sem méritos de ser bom ou ruim. A questão é que é incrível. Incrível daqueles bem próximos a impressionante.
Um bom exemplo são meus avós que namoravam através de cartas. Cartas? Fico admirada com a persistência de um amor mantido através de cartas. Imagino a Dona Eloá escrevendo ao Seu Ederaldo. Quantos dias ela levava para derramar o amor no papel? Quanto tempo o perfume embebido no algodão tinha para secar e não borrar a caligrafia? Quantas semanas para a carta chegar do interior à capital: uma, duas, três? Não sei. Aliás, será que com tanto tempo pra chegar ao destino o cheiro do perfume era mantido? Os bons fixadores devem ter nascido ou sido cogitados nessa época – arrisco.
Minha mãe diz que também chegou a namorar através de cartas. Por opção, trocava a ligação telefônica pelas novidades escritas. Sair para conferir a correspondência era tão diário quanto ler os jornais. Nessa época, o amor se chegava de mansinho. Linha a linha ia-se construindo uma nova história.
Hoje a tal história é outra e passa a ser escrita por bits e bytes. Salvo os saudosistas e demais exceções, o que ontem eram cartas de amor, hoje são contas a pagar – aliás, essas não se demoram. Não é a toa que estamos mais ansiosos, definitivamente, desaprendemos a esperar.
O mundo está virado em uma grande rede (nenhuma novidade): e caiu na rede é peixe. E o amor também está logado e tem senha de acesso. Sms, e-mail, scrap, twitter são suas vias expressas. Nada que um celular quase descartável e uma conexão dial-up não possam dar conta. Nada como uma webcam para antecipar o primeiro encontro e anular possíveis frustrações romanescas.
O amor tem pressa. Minhas amigas contam que nunca foram tão cantadas na vida como depois que inventaram o Orkut. Ou ainda antes, quando surgiu o MSN ou ICQ. Pula-se a troca de olhares, o sorriso maroto. Mais fácil, mais rápido e menos trabalhoso. Com tanta facilidade, só fica sozinho quem quer – me dizem.
Sem a intenção premeditada de entrar em paradoxos, mas já entrando: virtualmente acompanhados ainda continuamos sozinhos. Se a modernidade foi visionária, a pós-modernidade nem se fala. Os amores digitais só têm a lamentar um pouco a falta daquele outro tipo de digital, ou na linguagem de hoje: a falta de pegada.
06/07/09
AMORES DIGITAIS
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09/06/09
Crônicas (e outros gêneros) para Ouvir + Top Blog
Olá, queridos!
Se até ontem vocês me liam, agora já podem me ouvir. Para isto, basta clicar no bonequinho simpático aí do lado ou acessar o canal A Cronista no Gengibre.
Gruda o ouvido e escuta o que tenho pra te contar. (P.S.: Estou enfrentando alguns probleminhas com o volume. Prometo que logo irá melhorar.)
E antes tarde do que nunca: lanço OFICIALMENTE a participação do Blog no Prêmio Top Blog - categoria Cultura. Vocês já devem ter cruzado com o selo aí no cantinho. É só clicar, colocar nome, e-mail e votar! Eles encaminharão um e-mail para sua conta apenas para que confirme o voto. Facinho, facinho! Se acharem que mereço o voto, à vontade e obrigada desde já!
Superbeijo a todos.
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31/05/09
VOCÊ DIZ QUE NÃO SABE DANÇAR
Você diz que não sabe dançar. Discordo. Nenhuma prova pode ser maior do que a hora do sexo. Os corpos dançando entre os lençóis ao som da respiração ofegante. Aliás, esqueça os lençóis.
Você diz que não sabe dançar, mas conduz o meu corpo como ninguém. A gentileza das mãos a coordenar o ritmo da cintura, os dedos mergulhados nos cabelos, a língua úmida e quente lambendo o sal da pele, as pernas abraçando o quadril - pedindo para ficar um pouco mais ali. A sofreguidão do prazer que não cessa.
Quando estou no seu corpo não importa a temperatura lá fora. Pois no meu corpo, seu corpo faz verão. Me perco na estranheza da noite para me encontrar nos detalhes do seu dia. E como adoro os seus detalhes.
Quando estou no seu corpo não me apresso. Tranco a porta e jogo fora a chave. Só concordo em fazer o caminho de volta se for para começar tudo outra vez. Porque no seu corpo o meu corpo fica completo.
Quando estou no seu corpo me sinto inteira. Como se o prazer do encaixe e o conchego do abraço me devolvessem a mim. Tal qual o gozo de quem retorna pra casa depois de um dia complicado. Ou como múltiplos orgasmos em um único gozo.
Quando estou no seu corpo perco a noção do tempo, porque nesse instante o prazer é tudo que tenho. Não existe o tédio que se entretém com o teto, porque os seus olhos estão sobre mim, como janelas que me fazem enxergar o céu.
Quando estou no seu corpo tudo fica bem. É como se minha alma estivesse em casa. Porque o seu corpo é o lugar para onde eu sempre quero voltar.
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19/05/09
BRINDE
Acordou de ressaca e teve certeza de que não havia perdido a cabeça na noite anterior. (gabigomes)
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11/05/09
A MÃE DA MINHA MÃE
Oi, Vó!
Estranho te chamar assim. Depois de tanto tempo conseguir te chamar de vó. Já faz catorze anos desde a última vez que nos vimos e especialmente nesse Dia das Mães me deu uma saudade enorme de ti. É estranho, pois a gente até se conforma ou aprende a conviver com a ausência, embora lembre da presença e jamais esqueça dos momentos especiais.
Achei que não desse mais para doer. E que a saudade não haveria de ser encharcada. Dessas em que não fazemos idéia para onde é mesmo que estávamos olhando; dessas em que entre a pupila e o horizonte não existe nada além de uma espessa cortina de lágrimas. Igual a quando tomamos banho e o calor da água quente impede de vermos o que tem do outro lado.
Nely. Era assim, né? Me sinto mais confortável te chamando pelo nome. Talvez poucos consigam compreender o motivo de uma neta nunca ter chamado a própria avó de vó. É bonitinho, mas quando dito, o som da palavra parece sair correndo boca a fora – diferente de vô, que ao bater nos dentes, o som da palavra retorna pra dentro da gente. É apenas uma hipótese, mas a verdade é que tu era muito mais que a mãe da minha mãe. Muito mais que vó.
Não sei quando aconteceu de eu começar a te chamar pelo nome. E não era por falta de respeito, mas por vontade de aproximação. Usava da mesma liberdade com a qual me reporto aos amigos. E tu achando um barato tudo isso, no fundo sabia que depois de mim viriam outros netos para então, ser chamada de vó.
Pelas minhas contas, convivemos durante 10 anos. Não sei ao certo quando foi que a doença começou a te roubar das nossas brincadeiras e passou a diminuir nossos momentos juntas. Espero que tenha me desculpado por não estar perto de ti quando a barra começou a pesar. Não me disseram muito a respeito do que estava acontecendo, e eu também evitava saber que as coisas iriam mudar a partir dali. Sei que pra ti eles também não contaram, mas sempre estiveram do lado para dar a mão.
Sabe, além do pai e da mãe, foste umas das pessoas responsáveis pelo que eu me tornei hoje. Lembra dos roteiros mirabolantes de filmes que inventávamos? Tu que começou com essa história. As idéias eram sempre tuas e acho graça ao pensar que eram meus os papéis principais em todos eles. Eu tenho mania de falar que auto-estima começa em casa, e isso é tão constante que até acabou virando piada entre alguns amigos, a mãe e a mana. Falando nisso... Lembra da mana? Ela já ta na faculdade, cursa Administração. Ta mais alta do que eu. Aliás, os netos todos estão crescidos. Todos lindos e saudáveis.
E quanto a mim, hoje sou publicitária, sem emprego fixo, mas publicitária. To namorando com um cara legal, tu ia gostar dele – uma pena não ter tido a oportunidade de se conhecerem, eu tenho certeza de que vocês iam se gostar, iam se dar bem. Nesse meio tempo, tive alguns problemas como todo mundo, uns mais sérios – mas com a ajuda dos amigos, da mãe e da família, superei. Mas também nem quero falar disso agora.
Por falar na mãe, ela sempre fica esquisita no Dia das Mães. A gente não fala nada a respeito, mas entende que são saudades tuas. Se ela chora é no banheiro ou trancada no quarto em algum horário muito particular, porque ninguém ouve. Aliás, até hoje não consegue olhar tuas fotografias. Não fica triste por eu estar contando isso, é que ela não saberia o que fazer com tanta saudade. Mas pode ficar tranquila que na maior parte do tempo a tua filha tem se saído bem e sempre que lembra conta histórias incríveis de ti, coisas do tempo em que eu nem era nascida.
Ah, novidades de alguns anos atrás: a gente não mora mais na 992 e o Reggae - o nosso pastor alemão, lembra? O Reggae nem ta mais aqui entre a gente. Agora temos o Buddy, um labrador com olhos de ternura. Olhos de ternura. Que falta sinto dos teus.
Uma coisa a meu respeito que talvez não saiba é que comecei a escrever. No início era para me aproximar mais do pai - que também gosta. Necessidade que filho tem de aceitação, nem sei bem. No fim das contas, tomei gosto pela coisa de um jeito que já não importa tanto se irão gostar. Quer dizer, na verdade importa, mas não é isso que determina que eu pare ou continue, quem decide sou eu. Escrever se tornou uma maneira de tornar a vida mais cor de sonho.
Sabe do que eu lembrei agora? Daquela vez que o pai e a mãe foram me chamar na vizinha, dizendo que tinha uma surpresa me esperando em casa. Falaram que minha prima estava lá. Lembro que ao chegar notei que eles deviam ter feito uma brincadeira de péssimo gosto e que não tinha ninguém coisa nenhuma. De certo, apenas queriam que eu voltasse pra casa por já ser tarde. Foi uma surpresa tão grande e tão feliz quando eu te percebi escondida lá nos fundos. Era tu quem estava me esperando. Nenhuma das minhas amigas poderia me dar uma alegria daquelas.
Senti tua falta nas minhas formaturas do colégio, na do inglês. Senti tua falta na minha festa de quinze anos – sempre pensei que tu iria estar comigo naquele dia. Falta nas festas de final de ano. Uma vez a turma (era assim que tu chamava a família, né?) veio toda de Rio Grande passar o Reveillon aqui em casa. Foi um dos dias em que a mãe foi mais feliz. E eu também.
Fica bem por aí que a gente vai tentando se cuidar aqui.
Uma hora a gente se encontra.
Beijos.
Com todo amor,
Gabi.
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27/04/09
O CASAMENTO DE VERÔNICA
Junto com a irmã gêmea Beatriz, Verônica era a filha mais nova de Seu José e Dona Neusa – que acrescentaram à árvore genealógica da família Silva o total de cinco filhos: Verônica, Beatriz e mais três rapazes - hoje, homens feitos, com esposas dedicadas e filhos encomendados à cegonha.
Das duas, Verônica era a mais centrada e mesmo com fama de boa moça, era em Beatriz que o povo da cidade de Crispino apostava quando o assunto era qual delas casaria primeiro. Mesmo com Beatriz vivendo rodeada por homens de todas as idades, as apostas não passaram da primavera daquele ano, quando ela se mudou para a capital do estado de Vandivia para tentar a sorte na cidade grande.
Enquanto isso em Crispino, Verônica continuava com a vida de sempre: da casa pro trabalho, do trabalho pra casa – rotina que volta e meia era quebrada por aniversários, batizados e o que ela mais havia participado nos últimos tempos: casamentos.
Naquela época, moça com mais de trinta anos que não estivesse devidamente encaminhada, ganhava fama de solteirona – o que os mais velhos conversavam em suas casas e que as crianças, ao ouvirem atrás das portas, gritavam pelas ruas da cidadezinha.
Verônica era frequentemente convidada a ser Madrinha dos casórios da região. Alguns dizem que isso acontecia menos por amizade e mais por interesse na dedicação e atenção que ela despendia na hora de ajudar a organizar os eventos. Era dita organizada e muito responsável. Montar a lista de presentes, fazer a relação de convidados, escolher o buffet, acompanhar a noiva nas diversas provas de vestido e aturar seus chiliques, renovava em Verônica a esperança de que logo seria a sua vez de ser paparicada e fisgar um marido. Com esta certeza, cumpria seus afazeres de madrinha com um sorriso confiante no rosto.
Tudo estivera acontecendo normalmente em Crispino, até chegar a notícia que acabou se tornado o assunto preferido das velhas gordas que conversavam debruçadas nas janelas de casa:
- Soube da última, Clonilda? Laís e Rudinei! Laís e Rudi estão em casas separadas. Laís diz que nunca mais quer ter para com ele. A coisa foi mesmo feia. Rudinei se enrabichou por uma rapariga aí. – passava a diante uma delas.
Aconteceu o que todos temiam. O primeiro casal a ser abençoado no novo altar construído com a ajuda do povo, havia se separado. Laís e Rudinei foram antes, o que se podia chamar de casal vinte. Sempre juntos e aparentemente felizes. Incansáveis no amor. E claro, afilhados de Verônica no matrimônio.
Quando a notícia se confirmou, foi como se todos na cidade passassem a desacreditar e temer o casamento. Se aconteceu com Laís e Rudi, pode acontecer com qualquer um de nós – pensavam os casados. E foi a partir daí que começaram as separações.
Na época, ainda estava para se casar a última das amigas solteiras de Verônica. E que como de costume e conforme tiveram combinado na infância – Verônica seria a madrinha.
O dia chegou, a cerimônia se realizou, veio a festa e nada da presença da madrinha escolhida anos atrás. O que se soube mais tarde foi que Verônica sequer havia sido convidada. Daquele dia em diante, se tornou o símbolo máximo da falta de sorte. Nenhum dos casamentos em que foi madrinha resistiu ao tempo e um a um foram ruindo.
"É uma invejosa" – diziam as más línguas; "ao invés de abençoar os casais pragueja pelo fim"; e "se não consegue ser feliz, ninguém haverá de ser".
Ela mesma já havia se convencido de que estava fadada à solidão. Mas não custou muito para as bocas de Crispino se calarem. Havia chegado à cidade, um jovem rapaz: Pedro, vindo de Bituí – um município vizinho dali. Trabalhava com construções e ouvira falar que a região estava em franco crescimento, decidiu então tentar a vida pelas bandas de lá. Não era muito afeiçoado, mas pode-se dizer que era bom o suficiente para dar uma chacoalhada na retidão com que Verônica vinha tocando a vida.
Tão logo completaram oito meses de namoro, ficaram noivos e para dali a quatro meses estava marcado o casamento. Era a vez de Verônica subir ao altar e receber as bênçãos do padre, era a sua vez de seguir pelo tapete vermelho; e não pegar o caminho da esquerda e se acomodar com os padrinhos e madrinhas conforme fizera incontáveis vezes. É o casamento de Verônica – aclamava a cidade eufórica, incrédula e aliviada.
Chegara o dia que daria fim à falta de sorte e que colocaria a personagem principal dessa história na enxuta lista de casados. Com ela, haveria de ser diferente, demorara tanto para casar que merecia que fosse para sempre - pensava.
E na hora marcada todos estavam na igreja para testemunhar com os próprios olhos a união de Pedro e Verônica. Feito o juramento dos noivos, dito o sim, trocadas as alianças, os beijos e feitas as fotos no altar, todos se dirigiram ao salão de festas para o momento da valsa, da janta e do bolo. Verônica estava, enfim, casada. Havia conseguido um homem para dividir os dias, a cama e a vida.
Passados dezoito anos, o que se pode dizer é que nenhuma das pragas rogadas pelas ex-amigas desquitadas de Verônica caiu sobre seu relacionamento com Pedro. Mas o que ninguém jamais soube foi que para garantir o felizes para sempre dessa história, Verônica sequer compareceu à cerimônia do seu casamento. A verdade é que Beatriz subiu ao altar e disse sim ao amor no lugar da irmã. Disse sim por amor à irmã.
A quem possa interessar, Beatriz só conseguiu chegar em Crispino a tempo de provar o bolo e pegar o final da festa. O que aconteceu de verdade, ninguém pode saber. E até hoje, nem Pedro desconfia.
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06/04/09
POP ART de Maurício Porto
Fala, galera!
Para quem está ou estará em Porto Alegre nos próximos dias, aí vai a minha superdica cultural: Exposição de Arte na Sala Especial da Galeria de Arte Paulo Capelari, que fica na Rua Visconde do Rio Branco, 691 - com as obras do meu querido e talentosíssimo amigo, artista plástico, publicitário e primeiro dupla de criação - Maurício Porto.
O Maurício é mineiro e adotou Porto Alegre como sua segunda casa - onde vive atualmente. Morou uns bons anos no Rio de Janeiro - onde apurou sua veia Pop e em Nova York - que refinou ainda mais seu olhar e traços de artista. Realizou diversas mostras internacionais e trabalhou na Rede Globo de NY. Hoje, atua como Diretor de Arte em uma agência de PoA.
Eu até poderia ser suspeita, mas deem só uma olhadinha na arte dele que logo me darão razão. É de se apaixonar.
Alô Alô Carmen
Madonna Lisa
Breakfast in America
Site Pessoal: http://web.mac.com/macporto
Blog: http://mauriciomacporto.blogspot.com
_______________
Galeria de Arte Paulo Capelari
Rua Visconde do Rio Branco, 691
Floresta - Porto Alegre
Telefone(s):(51) 3312-8558
Horário(s): De 06/04 a 25/04/2009 - De segunda a sexta, das 9h às 19h; Sábado, das 10h às 13h
De 27/04 a 30/04/2009 - De segunda a quinta, das 9h às 19h
Preço(s): GRÁTIS
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27/03/09
Sobre a Fé
- Mãe! … Ô mãe!
- Te aquieta, guri. Já disse que não quero saber de bola dentro de casa. Sossega e senta nesse sofá.
- Mas mãe…
- O que foi?
- Eu queria saber… O que que é ateu?
- Ateu? Ateu é… Mas onde foi que tu ouviu isso, Bernardo?
- O pai que tava dizendo ontem.
- Outra vez o teu pai. E o que foi que ele falou dessa vez?
- Eu ouvi ele dizendo que ele é ateu.
- E tu ainda dá conversa?
- Mas o que é ateu?
- Ateu é… É gente que não sabe das coisas!
- Como assim?
- Gente que não sabe o que diz ou que fala besteira.
- Hmmm.
- Agora vai tomar teu banho.
- Mas mãe…
- O que é?
- E o pai? Ele é ateu porque não sabe o que diz ou porque fala besteira?
- Teu pai não sabe mesmo o que diz. Mas ateu, meu filho, significa aquela pessoa que não tem fé. E é besteira a gente falar que é ateu porque é o mesmo que dizer que não se tem fé. Entendeu?
- Ah… Mas da última vez que o tio Mauro teve aqui em casa, eu lembro dele falando que o pai agiu de má fé. Então o pai não é ateu não, mãe! Ele tem fé, só que às vezes a fé dele não é boa.
- Não é isso …
- E eu, mãe? Eu sou ateu?
- Não, querido. Você não é ateu.
- E o que que é fé mesmo?
- Fé é quando a gente acredita em alguma coisa.
- Ah! Tipo quando você acredita em mim quando eu digo que já escovei os dentes?
- É. Tipo quando eu acredito em você quando diz que já escovou os dentes. Mas agora vai tirar essa roupa suada que a janta sai daqui a pouco.
- Mas por que que eu não sou ateu?
- Porque você tem fé, meu amor.
- Como assim?
- A mãe não te ensinou a rezar antes de dormir e agradecer por todos aqueles que nós amamos?
- Uhum.
- Então!
- Então eu não sou ateu porque eu rezo pro Pai do Céu?
- É. Agora vai!
- Tá bom.
- Esse guri, com 7 anos de idade, me vem com cada uma que só vendo.
- Mas ô, mãe! Eu não entendi direito uma coisa.
- O quê?
- E Deus?
- O que tem Deus?
- Deus é ateu?
- Claro que não. Como Deus vai ser ateu se ele é nosso Pai?
- Mas mãe, então pra quem é que ele reza antes de dormir?
(Última contribuição para o Projeto Novas Visões)
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05/03/09
Tudo bem
E daí que em determinado momento da vida, chegamos à conclusão – ao menos, acredito que assim deveria ser, – de que tudo bem dedicar-se a alguém sem aguardar recompensas. Querer bem e conseguir se fazer entender me parece recompensa das boas.
E daí que nos damos conta de que tudo bem se ele não consegue dizer que a ama e que a maior declaração já feita foi em um momento de enorme fraqueza ter deixado escapar: “que bom que você está aqui”.
E daí que tudo bem se ela já teve outros caras, se fez sexo dos bons, experimentou posições que até você, que não é ciumento, não gostaria de tomar conhecimento de detalhes.
E daí que tudo bem estar exercendo uma profissão que não dá tanta grana assim. Afinal, há tantas outras vias expressas de riqueza.
Não é o caso de não se querer dedicação e reconhecimento. Ou que não se deseja saber-se amado e querido. Nem que seja fácil e simples desprezar o passado do outro. Ou ficar brigando com o que se tem, ao invés de tentar gostar.
Sem moralismos, apenas uma constatação: em determinado momento da vida, nos damos conta de que nem tudo é como se deseja, que as coisas irão durar o tempo que couber a elas, que esperar o que não é nosso ou o que nunca irá chegar – simplesmente por estar partindo para outra direção – é uma puta perda de tempo e energia.
E daí que apenas a percepção de que esse momento existe chegou à minha vida. O momento que é bom, nada. Continua por aí, sem dar as caras. Mas enquanto isso vou ensaiando, se demorar muito: tudo bem.
Escrito por Gabriela Gomes, especialmente para publicação na Coluna de 5ª-feira (5/03/09) do Blog da Natália: Um Pouco de Bossa
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20/02/09


